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Editorial

Antes do Berço

Ponto e Vírgula Ediçâo 3
5 min de leitura

“Mães, mulheres. Invisíveis, mas presentes.”
Paulina Chiziane

Existem acontecimentos que transformam uma família antes mesmo de a família existir. A gravidez é um deles.

Preparamos o berço ao pormenor. Preparamos a relação ao acaso. Escolhe-se a cor do quarto, o modelo do carrinho, o nome, com um cuidado quase ritual. A relação que vai habitar esse quarto, essa, entra na parentalidade exactamente como estava no dia em que souberam da gravidez.

O corpo da mulher transforma-se. As prioridades reorganizam-se. O equilíbrio económico do casal altera-se. E uma nova estrutura familiar começa silenciosamente a formar-se, muito antes de alguém ser chamado mãe ou pai.

Apesar disso, continuamos a falar da gravidez quase exclusivamente como um acontecimento biológico ou emocional. Fala-se da expectativa, da alegria, do bebé. Fala-se muito menos da profunda reorganização jurídica, económica e relacional que começa muito antes dele nascer.

A gravidez não altera apenas o corpo da mulher. Altera a arquitectura da relação.

Cada gestação implica uma exposição física que não pode ser ignorada. O corpo atravessa mudanças hormonais intensas, enfrenta riscos médicos reais e, em muitos casos, vê temporariamente reduzida a sua autonomia funcional. Muitas mulheres reduzem o ritmo profissional, interrompem projectos ou deixam de poder trabalhar com a mesma intensidade. Quando a mulher é empresária ou profissional independente, o impacto pode ser ainda mais sensível: negócios que dependem directamente da sua presença desaceleram, decisões estratégicas ficam suspensas, a estabilidade financeira da actividade oscila.

É neste momento que ocorre uma transformação silenciosa dentro da relação. A estrutura das contribuições financeiras move-se. A mulher pode passar, ainda que temporariamente, por um período de dependência económica. E aquilo que parecia apenas uma alteração biológica começa a produzir efeitos patrimoniais, relacionais e jurídicos.

Mas esta redistribuição dos sacrifícios encontra verdadeira correspondência no Direito? O ordenamento jurídico oferece mecanismos de protecção importantes, mas permanece uma questão que raramente é colocada: até que ponto o Direito compensa verdadeiramente um desequilíbrio que ele próprio reconhece existir?

Um desses mecanismos merece ser nomeado, e não apenas mencionado. Quando não há casamento, nem sequer coabitação, os alimentos devidos à mãe durante a gravidez são reconhecidos pelo ordenamento jurídico moçambicano como obrigação autónoma do pai, precisamente porque a lei não exige união alguma para reconhecer o desequilíbrio que a gravidez impõe. Quando há casamento, a lei não prevê um mecanismo próprio para este período, mas a mulher grávida não fica desprotegida: pode sempre recorrer à acção de contribuição do cônjuge para as despesas domésticas, que existe independentemente da gravidez mas que se torna particularmente útil precisamente quando a sua capacidade contributiva diminui. Nenhum destes direitos se exerce sozinho. Exigem ser conhecidos para serem accionados, e é comum que mulheres, casadas, solteiras ou em simples relação de namoro, atravessem toda a gravidez sem saber que existem. Ao lado da definição da filiação e da protecção contra despedimentos discriminatórios, são estes os instrumentos que mais directamente protegem o desequilíbrio económico que a gravidez impõe.

A lei já decidiu o que fazer com esta assimetria. A pergunta é se o casal sabe disso.

Paradoxalmente, trata-se de um dos momentos da vida em que mais decisões jurídicas relevantes são tomadas sem que os intervenientes se apercebam de que as estão a tomar.

Não decidir também é decidir.

Não discutir a organização financeira é uma decisão. Não preparar mecanismos mínimos de segurança patrimonial é igualmente uma decisão. E, como acontece tantas vezes no Direito da Família, as consequências dessas omissões raramente se revelam quando são praticadas. Revelam-se anos mais tarde, quando o conflito surge e as expectativas já se consolidaram.

Mas a gravidez não altera apenas circunstâncias. Altera pessoas. Alguns divórcios começam muito antes da decisão de separar, quando duas pessoas atravessam uma transformação profunda sem reconhecer que estão a atravessá-la. Existe uma tendência para pensar que o nascimento de um filho resolve fragilidades que já existiam. A experiência demonstra frequentemente o contrário. A chegada de uma criança não elimina tensões, amplifica-as. Não corrige desequilíbrios, revela-os. Não substitui acordos, torna-os mais necessários.

Muito antes de existir qualquer documento assinado, a gravidez cria um contrato invisível entre duas pessoas: redistribui riscos, altera expectativas, cria deveres e transforma patrimónios. O Direito apenas chega depois para tentar organizar aquilo que a vida já começou a construir.

Reduzir a gravidez a um simples facto biológico é, por isso, um erro. É também um acontecimento estruturante na arquitectura jurídica, económica e relacional de uma família. Chiziane escreveu sobre mães invisíveis, mas presentes. É essa a posição em que a gravidez, sem preparação jurídica, deixa tantas mulheres: presentes em cada consequência, invisíveis em cada decisão. E o berço, por mais completo que esteja, não protege ninguém do que ficou por decidir fora dele.

PARA PENSAR
Olhe para o que já preparou fisicamente para a chegada do seu filho, o quarto, o enxoval, o nome. Agora liste, ao lado, o que preparou juridicamente para a mesma chegada. Se a segunda lista estiver em branco, sabe que direito começar por conhecer.

Um berço bem preparado protege o conforto de uma criança. Não protege a estrutura da família que a vai criar.

Ponto e Vírgula é um espaço de reflexão jurídica sobre casamento, divórcio, filiação, sucessões e planeamento patrimonial. Não se trata apenas de explicar a lei. Trata-se de pensar criticamente sobre as estruturas jurídicas que organizam a vida privada e sobre as escolhas que podem proteger ou fragilizar famílias e patrimónios.

Bem-vinda(o) à próxima frase.

Tânia D. I. A. Waty
Tânia D. I. A. Waty
Advogada e Professora Universitária